terça-feira, 1 de abril de 2014

Papoilas da minha infância

Quando eu era criança, no terreno atrás da minha casa, havia um campo de papoilas. Era lá que eu e os meus irmãos passávamos as tardes a brincar. A correr, soltos como o vento.

Por vezes caíamos e magoávamo-nos. Nessas alturas a minha mãe, matriarca diligente e atenta aos seus petizes, vinha ao nosso encontro, sacudia a poeira que ficava nas nossas roupas e dava-nos um beijo na testa para aliviar as dores do ego.

O meu pai, patriarca sisudo e ciente da sua responsabilidade familiar, fazia aparições diárias para colocar na ordem a sua prole. Ele sabia sempre quem se tinha portado bem e quem tinha feito asneiras.
Ambos completavam-se na sua tarefa de educar os seus filhos. A minha mãe afetuosa e o meu pai omnipresente.

As manhãs que precediam as brincadeiras no campo de papoilas, eram sempre preenchidas com a aprendizagem das letras, dos números, da arte,… E o que eu mais gostava era das aulas de violino. Pegar aquele instrumento nas minhas mãos de criança e fazer com que dele saíssem sons maravilhosos, fazer com que as pautas ganhassem vida, fazer com tivessem uma dimensão extra. Tinha alturas em que as cordas magoavam os meus pequenos dedos… mas nada disso tinha importância alguma. O importante era tocar, tocar sempre… e adquirir toda a técnica necessária para cumprir com essa tarefa e, quem sabe, um dia tocar numa orquestra de renome.

E assim cresci, no meio das papoilas e dos beijos ao ego e de um pai omnipresente e de pautas que ganhavam vida no meu violino.

Cresci e tornei-me mulher. Esqueci os sonhos de ser violinista numa orquestra. O meu pai fez questão de me orientar para a organização da vida doméstica porque “essa era a tarefa da mulher” e a minha mãe (senhora que em tempos foi menina com sonhos iguais aos meus) nunca poderia insurgir-se contra a vontade de meu pai.

Tornei-me mãe e hoje sou eu a matriarca. Hoje sou eu que deixo os meus filhos correrem soltos ao vento e que lhes dou beijos quando se magoam… e sou eu que conto ao pai omnipresente como correu o dia dos petizes, para que ele saiba quem deve elogiar e quem deve castigar.
E depois de todos estes anos, depois dos meus sonhos de criança não serem mais do que uma vaga lembrança na minha memória, percebo que quem era omnipresente era a minha mãe e quem me guiou na direção contrária aos meus sonhos foi ela e não o meu pai.

Quero quebrar o ciclo. Quero que as minhas filhas sejam o que os seus sonhos lhes ditarem. Acima de tudo quero que elas sejam felizes e que se lembrem para sempre das papoilas que encheram a sua infância.


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