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Do tempo

- Os seres humanos encaram o tempo como uma linha reta. Aos olhos deles, é o mesmo que fazer furos num pau comprido e plano. Como se dissessem  estamos aqui, neste ponto, que representa o presente, o que fica para trás é o passado, e ali à frente está o futuro. Entendes?
- Acho que sim.
- Acontece que, na realidade, o tempo não é uma linha a direito. Não tem forma. carece de forma, em todos os sentidos. Visto que nós somos incapazes de imaginar algo amorfo, dá-nos jeito concebê-lo como tratando-se de uma linha reta, mas não passa de uma convenção. Nós, seres humanos, somos os únicos capazes de proceder a essa transposição de conceitos.
- Se calhar, estamos enganados.
Aquela afirmação da jovem deixou Tengo pensativo.
- Queres dizer que, se calhar, nos enganamos ao considerar o tempo uma linha a direito?
Fuka-Eri não respondeu.
- Claro, existe essa possibilidade. pode ser que estejamos enganados e que os corvos tenham razão. Talvez o tempo não seja em nada parecido com uma linha direita. Talvez, quem sabe?, tenha a forma encurvada de um doughnut - sugeriu Tengo. - Porém, vivemos durante milhares de anos agarrados a essa ideia, que é como quem diz, a viver na base da premissa que o tempo é uma linha reta que se prolonga até ao infinito. E, até à data, nunca se verificou nada que contrariasse essa teoria. Tão-pouco se descortinaram quaisquer inconvenientes. De modo que, enquanto regra empírica, deveria ser válida.

1Q84#3 by Haruki Maurkami

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